quinta-feira, 14 de março de 2013
domingo, 3 de março de 2013
Entrevista a uma Monja Beneditina
A contribuição da vida monástica ao mundo de hoje é a gratuidade
Entrevista com a abadessa Ir. Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, OSB, do mosteiro Nossa Senhora da Paz, de Itapecerica da Serra, SP
Por Thécio Lincon Soares de Siqueira
BRASíLIA, 26 de Fevereiro de 2013 (Zenit.org) - A vida religiosa é uma “consagração particular ao Senhor”, com afirma o decreto Perfectae Caritatis do Concílio Vaticano II. Um chamado de
Deus com esse “desejo de viver uma vida de união profunda com Deus e com os irmãos e irmãs através da oração”, afirmou à ZENIT a Ir. Martha
Lúcia.
Nessa série de várias entrevistas com superiores de diversos mosteiros do Brasil,
de diferentes ordens religiosas, hoje ZENIT entrevistou a abadessa Ir.
Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, OSB, do mosteiro Nossa Senhora da Paz, de Itapecerica da Serra, SP.
O mosteiro Nossa Senhora da Paz (www.mosteironossasenhoradapaz.org.br) é uma comunidade de monjas beneditinas, fundado em 21 de Julho de
1974, como priorado dependente da Abadia de Santa Maria, e erigido em
Abadia a 23 de maio de 1983.
Publicamos a entrevista a seguir:
***
ZENIT: O que faz com que uma pessoa entre na vida monástica? Qual é o sentido da vida monástica hoje?
Ir. Martha: Toda vocação é sempre um chamado, um chamado de Deus para aquela determinada escolha. No caso da vida monástica é um desejo de viver uma vida de união profunda com
Deus e com os irmãos e irmãs, através da oração.
O sentido da vida monástica hoje é o mesmo do início do monaquismo: é o desejo de procurar, de buscar,
verdadeiramente a Deus; de viver o ideal dos primeiros cristãos, como
nos narra o Livro dos Atos dos Apóstolos: “Eles mostravam-se assíduos
ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às
orações”(At 2,42)
A contribuição da vida monástica
ao mundo de hoje e de sempre é a gratuidade, o sentido da gratuidade. A
beleza e a alegria da gratuidade. A gratuidade não se compra: talvez o
mundo secularizado tenha perdido esse bem, perdendo, por conseguinte, a
fonte da alegria genuína. Mas existe também outra mensagem que a vida
monástica oferece ao mundo com sua mera existência: a vida dos monges e
monjas, tão simples, aparentemente insignificante, é memória viva
daquilo que é essencial para o homem: o amor do Pai que nos é dado em
Jesus através do Espírito. Podemos viver sem outras coisas, mas não sem
esse amor, que é precisamente a condição necessária e suficiente para
viver e desfrutar a vida.
ZENIT: Fale-nos um pouco do seu mosteiro. Vida, número de membros, fundação...
Ir. Martha: Somos monjas
beneditinas e seguimos a Regra de São Bento, o pai dos monges do
Ocidente e padroeiro da Europa, que viveu no século VI, na Itália.
O nosso Mosteiro chama-se
Mosteiro Nossa Senhora da Paz, e estamos localizadas na Cidade de
Itapecerica da Serra, SP, Diocese de Campo Limpo. Foi fundado em 1974 e é a última fundação da Abadia de Santa Maria , em São Paulo, que foi o primeiro Mosteiro de monjas beneditinas das Américas; ele celebrou em
2011 o seu primeiro centenário, tendo suas raízes na Abadia de
Stanbrook, Inglaterra.
Vieram 9 monjas fundadoras e 2 já se encontram na vida eterna. Atualmente ainda temos entre nós 5 das
monjas fundadoras; a mais antiga, nossa primeira Abadessa, Madre
Dorotéia Rondon Amarante, está com quase 97 anos e já celebrou seus 75
anos de profissão monástica.
Hoje, a nossa comunidade consta
de 30 membros: 21 monjas de votos solenes, 5 monjas de votos
temporários, 1 noviça, 2 postulantes e 1 religiosa em tempo de provação.
Vivendo em comunidade o mistério
da vocação cristã, que nos torna filhas de Deus e irmãs em Cristo, as
monjas têm um profundo relacionamento fraterno. Cada irmã tem o seu
trabalho determinado e põe em comunhão seus talentos, habilidades e
esperanças, a serviço de todas, na alegria da doação.
Juntas rezamos, juntas trabalhamos, juntas estudamos e temos nossos
momentos de recreação; aceitamos, reciprocamente, as nossas limitações e nos ajudamos mutuamente a superar nossas dificuldades caminhando juntas para Deus.
A comunidade não é apenas um meio humano para o crescimento das
irmãs, mas possibilita comungar da vida de Deus, de Quem ela assegura, a seu modo, a presença e a ação.
A vida monástica beneditina é uma vida cenobítica (comunitária),
caracterizada pela vivência da caridade fraterna. A monja deve
participar de todos os atos comunitários: oração, trabalho, estudos,
refeições, recreios. A caridade é o vínculo profundo que une toda a
família monástica e a torna uma comunidade de fé, de oração e de
trabalho, exemplo para a reconciliação universal em Cristo.
Vivemos a espiritualidade beneditina segundo a Regra de São Bento.
Essa espiritualidade alimenta-se em três mananciais da vida no Espírito: a Liturgia, a lectio divina (Sagrada Escritura) e a Regra de São Bento.
A comunidade, consciente de que a Eucaristia é o ápice da Liturgia e
da vida cristã, reúne-se diariamente para a Celebração Eucarística.
ZENIT: Para o mundo vocês estão presas e estão perdendo a vida. É assim mesmo?
Ir. Martha: Absolutamente. Nossa
vida é fruto de um perpétuo diálogo entre Deus que nos chama e nossa
liberdade. Ela é uma resposta livre a um apelo permanente que Deus nos
faz, tanto de fora, pela voz da abadessa e da Santa Regra como
interiormente, pelas solicitações íntimas do Espírito Santo, que são a
Lei nova inscrita em nossos corações; ela nos liberta de toda coação
exterior, de toda servidão da lei, fazendo-nos concordar, no mais
profundo de nós mesmas, com todas as vontades divinas.
Nossa vocação só pode ser entendida numa perspectiva de mistério de
amor. E a resposta diária, que damos no início de cada Celebração
Eucarística, nos ajuda a entender esse mistério: “o amor de Cristo nos
uniu”!
ZENIT: Temos um Papa que escolheu um nome monástico para o
seu pontificado, Bento XVI. O que tem significado Bento XVI para a
espiritualidade monacal?
Ir. Martha: O Papa Bento tem sido para toda a Igreja de Deus o que
ele mesmo disse, ao iniciar o seu Pontificado: “simples e humilde
trabalhador na vinha do Senhor”. Sua lucidez e sua interiorização da
Palavra de Deus nos apontam o caminho para que todo o Povo de Deus
caminhe sempre mais na direção do Senhor.
Para nós, beneditinos, ele confirma, com o testemunho de sua vida
toda de doação, que a humildade é o caminho que nos aproxima sempre mais de Deus. Ele nos ensina e vive, o que é o lema dos beneditinos: uma
vida de “ora et labora”, “nada antepondo ao amor do Cristo” (Regra de
São Bento, cap 4,21), “para que em tudo seja Deus glorificado”(RB
57,9).
Nesse sentido os seus escritos têm sido de transcendental importância para a nossa espiritualidade: o aprofundamento e o conhecimento da
pessoa de Jesus Cristo.
ZENIT: A vida de oração é muito complicada?
Ir. Martha: Não, a vida de oração só fica complicada quando nós a
complicamos, ou seja, fazemos inúmeras pregas no nosso relacionamento
com Deus.
A vida de oração é simples: consiste em um encontro e um diálogo com o Senhor.
Uma comunidade é um ser vivo e deve respirar para viver, e agir para
fazer o bem. A oração é a respiração vital da comunidade e de cada
membro. É o sinal de nossa vida, que a Regra invoca nas célebres
palavras que nenhum monge e monja pode esquecer: “Nada se anteponha ao
Opus Dei”(RB 43,3).
Na vida beneditina, ela é dividida em dois momentos fortes do dia: a
oração pessoal, chamada “lectio divina”, que consiste na leitura orante e ruminada da Sagrada Escritura, e a oração comunitária da Liturgia das
Horas, o “Opus Dei”em que nos reunimos 7 vezes na Igreja para cantar os
louvores do Senhor através dos hinos, salmos e leituras, específicos
para cada hora do dia. Esse aspecto da nossa vida faz-nos já antecipar,
aqui e agora, o que faremos na eternidade, concedendo-nos viver as
realidades escatológicas. Quando nos reunimos para rezar o Ofício
divino, já participamos da liturgia da Cidade celeste.
ZENIT: Há paz, detrás dessas grades ou muros? Qual é a essência de um consagrado?
Ir. Martha: A paz é sempre uma conquista diária. É um dos desejos
mais profundos do coração do homem, juntamente com o amar e ser amado,
com o ser feliz. E foi para isso mesmo que Deus nos criou. Para nós, na
vida beneditina, fica claro o convite que nos apresenta São Bento no
Prólogo da sua Regra: “Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias
felizes”? Se, ouvindo, responderes “Eu”, dir-te-á Deus: “Se queres
possuir a verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o
bem, procura a paz e segue-a”.
Eis a questão decisiva. Aqui não se pode tratar senão de uma vida
mais sublime que a terrena, a verdadeira e eterna vida que é equiparada à paz. Essa paz que almejamos e da qual jamais devemos abrir mão, é uma
harmonia interior, reconciliação consigo mesmo, com Deus e com o
próximo. Paz significa unidade, ausência de qualquer oposição. Só está
apto para a vocação monástica, quem busca esta paz.
A paz decorre da experiência de vivermos na “Via do Senhor”. A Via é
esse clima criado pelo senso agudo e entusiástico da presença ativa do
Senhor ressuscitado, em cada um e na comunidade como um todo, incitando
ao fervor de caminhar em seu Espírito, em pleno coração da história,
construindo dia a dia o “já agora” do Reino no “ainda não”do tempo
inaugurado pela Ressurreição do Senhor e pela efusão do seu Espírito.
A essência da vida consagrada é viver uma vida de total comunhão e
intimidade com o Senhor, de total doação aos irmãos e irmãs, de, a
exemplo de Jesus, amar de uma forma incondicional, e de passar por essa
vida fazendo o bem, construindo, o Reino de Deus, de amor e de paz.
ZENIT: Vocês fazem algum trabalho apostólico? Como está a preparação para a Jornada Mundial da Juventude 2013?
Ir. Martha: A vida monástica se distingue das outras formas de vida
religiosa pela ausência de um fim “secundário”, como ter escolas,
hospitais, missões, etc.; tem como única finalidade a busca de Deus. Mas dentro do nosso carisma próprio vivemos concretamente a solidariedade
com as pessoas. Temos a hospedaria, onde partilhamos com as pessoas de
fora a nossa riqueza: a vida de silêncio e de oração; atendemos quem vem aqui pedir a preparação de criança ou de adultos para o batismo,
primeira comunhão, crisma, matrimônio. Damos assistência semanal a cerca de 70 famílias carentes, de nossa região, graças a doações de nossos
amigos, benfeitores e familiares. E carregamos no coração toda a Igreja, apresentando na oração a necessidade e os pedidos de tantos que nos
procuram por telefone, por e-mail, por cartas, e em nossos parlatórios.
Estamos acompanhando ainda mais com nossas orações, toda a preparação para a Jornada Mundial da Juventude, desde que soubemos que seria, pela primeira vez no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Tivemos ainda a
grande alegria de sermos indicadas por nosso amigo e oblato, o artista
sacro, Cláudio Pastro, que também está envolvido na preparação da
Jornada Mundial da Juventude, para prepararmos os livros da Liturgia das Horas, que serão distribuídos para cada jovem (em torno de 4 milhões de exemplares, em duas línguas: português e inglês). Assim nos vimos
mergulhadas no coração da Jornada Mundial da Juventude, através desses
momentos de oração dos jovens.
ZENIT: Qual é a espiritualidade que vocês seguem?
Ir. Martha: Seguimos a espiritualidade beneditina, que tem como elementos essenciais:
O “renunciar-se a si mesmo para seguir o Cristo”, como condição
indispensável para buscar verdadeiramente a Deus, em Jesus Cristo e por
ele.
O segundo elemento essencial é uma íntima vida de comunidade, dentro
da qual se torna viável a realização desse despojamento. A Regra de São
Bento define o mosteiro como uma “escola de serviço do Senhor”, uma vida cenobítica, comunitária.
O terceiro elemento essencial é a comunidade em torno de Cristo: esta se reúne, com “humilde e sincero amor”em torno de uma pessoa, a
abadessa, que tem o lugar do Senhor e através da qual se manifesta às
irmãs o amor com que Deus as ama.
O quarto elemento essencial da vida Beneditina é a oração e o
trabalho, como duas realidades do Opus Dei. A vida beneditina é, muitas
vezes, expressa pelo lema “ora et labora”. O trabalho aparece na Regra
em harmoniosa alternância com o Ofício, a lectio divina e a oração
particular.
E , finalmente, o quinto elemento essencial da nossa vida é o viver
em Cristo, caracterizado por um dinamismo de saber-se caminhar, guiada
pelo Evangelho, trilhando os seus caminhos.
ZENIT: Como os leitores de ZENIT podem ajudar o mosteiro de vocês?
Ir. Martha: Penso que uma primeira forma de ajudar o nosso mosteiro é rezarem por nós, para que possamos ser fiéis a esse grande carisma que
nos foi confiado e assim sermos verdadeiras testemunhas da ressurreição
de Cristo e do seu amor por cada ser criado.
E se puderem colaborar de alguma
forma para os trabalhos de nossa comunidade, podem entrar em contato
conosco pelo e-mail: contato@mosteironossasenhoradapaz.org.br .
Nosso site: WWW.mosteironossasenhoradapaz.org.br
Obrigada!
Entrevista com a abadessa Ir. Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, OSB, do mosteiro Nossa Senhora da Paz, de Itapecerica da Serra, SP
Por Thécio Lincon Soares de Siqueira
BRASíLIA, 26 de Fevereiro de 2013 (Zenit.org) - A vida religiosa é uma “consagração particular ao Senhor”, com afirma o decreto Perfectae Caritatis do Concílio Vaticano II. Um chamado de
Deus com esse “desejo de viver uma vida de união profunda com Deus e com os irmãos e irmãs através da oração”, afirmou à ZENIT a Ir. Martha
Lúcia.
Nessa série de várias entrevistas com superiores de diversos mosteiros do Brasil,
de diferentes ordens religiosas, hoje ZENIT entrevistou a abadessa Ir.
Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, OSB, do mosteiro Nossa Senhora da Paz, de Itapecerica da Serra, SP.
O mosteiro Nossa Senhora da Paz (www.mosteironossasenhoradapaz.org.br) é uma comunidade de monjas beneditinas, fundado em 21 de Julho de
1974, como priorado dependente da Abadia de Santa Maria, e erigido em
Abadia a 23 de maio de 1983.
Publicamos a entrevista a seguir:
***
ZENIT: O que faz com que uma pessoa entre na vida monástica? Qual é o sentido da vida monástica hoje?
Ir. Martha: Toda vocação é sempre um chamado, um chamado de Deus para aquela determinada escolha. No caso da vida monástica é um desejo de viver uma vida de união profunda com
Deus e com os irmãos e irmãs, através da oração.
O sentido da vida monástica hoje é o mesmo do início do monaquismo: é o desejo de procurar, de buscar,
verdadeiramente a Deus; de viver o ideal dos primeiros cristãos, como
nos narra o Livro dos Atos dos Apóstolos: “Eles mostravam-se assíduos
ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às
orações”(At 2,42)
A contribuição da vida monástica
ao mundo de hoje e de sempre é a gratuidade, o sentido da gratuidade. A
beleza e a alegria da gratuidade. A gratuidade não se compra: talvez o
mundo secularizado tenha perdido esse bem, perdendo, por conseguinte, a
fonte da alegria genuína. Mas existe também outra mensagem que a vida
monástica oferece ao mundo com sua mera existência: a vida dos monges e
monjas, tão simples, aparentemente insignificante, é memória viva
daquilo que é essencial para o homem: o amor do Pai que nos é dado em
Jesus através do Espírito. Podemos viver sem outras coisas, mas não sem
esse amor, que é precisamente a condição necessária e suficiente para
viver e desfrutar a vida.
ZENIT: Fale-nos um pouco do seu mosteiro. Vida, número de membros, fundação...
Ir. Martha: Somos monjas
beneditinas e seguimos a Regra de São Bento, o pai dos monges do
Ocidente e padroeiro da Europa, que viveu no século VI, na Itália.
O nosso Mosteiro chama-se
Mosteiro Nossa Senhora da Paz, e estamos localizadas na Cidade de
Itapecerica da Serra, SP, Diocese de Campo Limpo. Foi fundado em 1974 e é a última fundação da Abadia de Santa Maria , em São Paulo, que foi o primeiro Mosteiro de monjas beneditinas das Américas; ele celebrou em
2011 o seu primeiro centenário, tendo suas raízes na Abadia de
Stanbrook, Inglaterra.
Vieram 9 monjas fundadoras e 2 já se encontram na vida eterna. Atualmente ainda temos entre nós 5 das
monjas fundadoras; a mais antiga, nossa primeira Abadessa, Madre
Dorotéia Rondon Amarante, está com quase 97 anos e já celebrou seus 75
anos de profissão monástica.
Hoje, a nossa comunidade consta
de 30 membros: 21 monjas de votos solenes, 5 monjas de votos
temporários, 1 noviça, 2 postulantes e 1 religiosa em tempo de provação.
Vivendo em comunidade o mistério
da vocação cristã, que nos torna filhas de Deus e irmãs em Cristo, as
monjas têm um profundo relacionamento fraterno. Cada irmã tem o seu
trabalho determinado e põe em comunhão seus talentos, habilidades e
esperanças, a serviço de todas, na alegria da doação.
Juntas rezamos, juntas trabalhamos, juntas estudamos e temos nossos
momentos de recreação; aceitamos, reciprocamente, as nossas limitações e nos ajudamos mutuamente a superar nossas dificuldades caminhando juntas para Deus.
A comunidade não é apenas um meio humano para o crescimento das
irmãs, mas possibilita comungar da vida de Deus, de Quem ela assegura, a seu modo, a presença e a ação.
A vida monástica beneditina é uma vida cenobítica (comunitária),
caracterizada pela vivência da caridade fraterna. A monja deve
participar de todos os atos comunitários: oração, trabalho, estudos,
refeições, recreios. A caridade é o vínculo profundo que une toda a
família monástica e a torna uma comunidade de fé, de oração e de
trabalho, exemplo para a reconciliação universal em Cristo.
Vivemos a espiritualidade beneditina segundo a Regra de São Bento.
Essa espiritualidade alimenta-se em três mananciais da vida no Espírito: a Liturgia, a lectio divina (Sagrada Escritura) e a Regra de São Bento.
A comunidade, consciente de que a Eucaristia é o ápice da Liturgia e
da vida cristã, reúne-se diariamente para a Celebração Eucarística.
ZENIT: Para o mundo vocês estão presas e estão perdendo a vida. É assim mesmo?
Ir. Martha: Absolutamente. Nossa
vida é fruto de um perpétuo diálogo entre Deus que nos chama e nossa
liberdade. Ela é uma resposta livre a um apelo permanente que Deus nos
faz, tanto de fora, pela voz da abadessa e da Santa Regra como
interiormente, pelas solicitações íntimas do Espírito Santo, que são a
Lei nova inscrita em nossos corações; ela nos liberta de toda coação
exterior, de toda servidão da lei, fazendo-nos concordar, no mais
profundo de nós mesmas, com todas as vontades divinas.
Nossa vocação só pode ser entendida numa perspectiva de mistério de
amor. E a resposta diária, que damos no início de cada Celebração
Eucarística, nos ajuda a entender esse mistério: “o amor de Cristo nos
uniu”!
ZENIT: Temos um Papa que escolheu um nome monástico para o
seu pontificado, Bento XVI. O que tem significado Bento XVI para a
espiritualidade monacal?
Ir. Martha: O Papa Bento tem sido para toda a Igreja de Deus o que
ele mesmo disse, ao iniciar o seu Pontificado: “simples e humilde
trabalhador na vinha do Senhor”. Sua lucidez e sua interiorização da
Palavra de Deus nos apontam o caminho para que todo o Povo de Deus
caminhe sempre mais na direção do Senhor.
Para nós, beneditinos, ele confirma, com o testemunho de sua vida
toda de doação, que a humildade é o caminho que nos aproxima sempre mais de Deus. Ele nos ensina e vive, o que é o lema dos beneditinos: uma
vida de “ora et labora”, “nada antepondo ao amor do Cristo” (Regra de
São Bento, cap 4,21), “para que em tudo seja Deus glorificado”(RB
57,9).
Nesse sentido os seus escritos têm sido de transcendental importância para a nossa espiritualidade: o aprofundamento e o conhecimento da
pessoa de Jesus Cristo.
ZENIT: A vida de oração é muito complicada?
Ir. Martha: Não, a vida de oração só fica complicada quando nós a
complicamos, ou seja, fazemos inúmeras pregas no nosso relacionamento
com Deus.
A vida de oração é simples: consiste em um encontro e um diálogo com o Senhor.
Uma comunidade é um ser vivo e deve respirar para viver, e agir para
fazer o bem. A oração é a respiração vital da comunidade e de cada
membro. É o sinal de nossa vida, que a Regra invoca nas célebres
palavras que nenhum monge e monja pode esquecer: “Nada se anteponha ao
Opus Dei”(RB 43,3).
Na vida beneditina, ela é dividida em dois momentos fortes do dia: a
oração pessoal, chamada “lectio divina”, que consiste na leitura orante e ruminada da Sagrada Escritura, e a oração comunitária da Liturgia das
Horas, o “Opus Dei”em que nos reunimos 7 vezes na Igreja para cantar os
louvores do Senhor através dos hinos, salmos e leituras, específicos
para cada hora do dia. Esse aspecto da nossa vida faz-nos já antecipar,
aqui e agora, o que faremos na eternidade, concedendo-nos viver as
realidades escatológicas. Quando nos reunimos para rezar o Ofício
divino, já participamos da liturgia da Cidade celeste.
ZENIT: Há paz, detrás dessas grades ou muros? Qual é a essência de um consagrado?
Ir. Martha: A paz é sempre uma conquista diária. É um dos desejos
mais profundos do coração do homem, juntamente com o amar e ser amado,
com o ser feliz. E foi para isso mesmo que Deus nos criou. Para nós, na
vida beneditina, fica claro o convite que nos apresenta São Bento no
Prólogo da sua Regra: “Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias
felizes”? Se, ouvindo, responderes “Eu”, dir-te-á Deus: “Se queres
possuir a verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o
bem, procura a paz e segue-a”.
Eis a questão decisiva. Aqui não se pode tratar senão de uma vida
mais sublime que a terrena, a verdadeira e eterna vida que é equiparada à paz. Essa paz que almejamos e da qual jamais devemos abrir mão, é uma
harmonia interior, reconciliação consigo mesmo, com Deus e com o
próximo. Paz significa unidade, ausência de qualquer oposição. Só está
apto para a vocação monástica, quem busca esta paz.
A paz decorre da experiência de vivermos na “Via do Senhor”. A Via é
esse clima criado pelo senso agudo e entusiástico da presença ativa do
Senhor ressuscitado, em cada um e na comunidade como um todo, incitando
ao fervor de caminhar em seu Espírito, em pleno coração da história,
construindo dia a dia o “já agora” do Reino no “ainda não”do tempo
inaugurado pela Ressurreição do Senhor e pela efusão do seu Espírito.
A essência da vida consagrada é viver uma vida de total comunhão e
intimidade com o Senhor, de total doação aos irmãos e irmãs, de, a
exemplo de Jesus, amar de uma forma incondicional, e de passar por essa
vida fazendo o bem, construindo, o Reino de Deus, de amor e de paz.
ZENIT: Vocês fazem algum trabalho apostólico? Como está a preparação para a Jornada Mundial da Juventude 2013?
Ir. Martha: A vida monástica se distingue das outras formas de vida
religiosa pela ausência de um fim “secundário”, como ter escolas,
hospitais, missões, etc.; tem como única finalidade a busca de Deus. Mas dentro do nosso carisma próprio vivemos concretamente a solidariedade
com as pessoas. Temos a hospedaria, onde partilhamos com as pessoas de
fora a nossa riqueza: a vida de silêncio e de oração; atendemos quem vem aqui pedir a preparação de criança ou de adultos para o batismo,
primeira comunhão, crisma, matrimônio. Damos assistência semanal a cerca de 70 famílias carentes, de nossa região, graças a doações de nossos
amigos, benfeitores e familiares. E carregamos no coração toda a Igreja, apresentando na oração a necessidade e os pedidos de tantos que nos
procuram por telefone, por e-mail, por cartas, e em nossos parlatórios.
Estamos acompanhando ainda mais com nossas orações, toda a preparação para a Jornada Mundial da Juventude, desde que soubemos que seria, pela primeira vez no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Tivemos ainda a
grande alegria de sermos indicadas por nosso amigo e oblato, o artista
sacro, Cláudio Pastro, que também está envolvido na preparação da
Jornada Mundial da Juventude, para prepararmos os livros da Liturgia das Horas, que serão distribuídos para cada jovem (em torno de 4 milhões de exemplares, em duas línguas: português e inglês). Assim nos vimos
mergulhadas no coração da Jornada Mundial da Juventude, através desses
momentos de oração dos jovens.
ZENIT: Qual é a espiritualidade que vocês seguem?
Ir. Martha: Seguimos a espiritualidade beneditina, que tem como elementos essenciais:
O “renunciar-se a si mesmo para seguir o Cristo”, como condição
indispensável para buscar verdadeiramente a Deus, em Jesus Cristo e por
ele.
O segundo elemento essencial é uma íntima vida de comunidade, dentro
da qual se torna viável a realização desse despojamento. A Regra de São
Bento define o mosteiro como uma “escola de serviço do Senhor”, uma vida cenobítica, comunitária.
O terceiro elemento essencial é a comunidade em torno de Cristo: esta se reúne, com “humilde e sincero amor”em torno de uma pessoa, a
abadessa, que tem o lugar do Senhor e através da qual se manifesta às
irmãs o amor com que Deus as ama.
O quarto elemento essencial da vida Beneditina é a oração e o
trabalho, como duas realidades do Opus Dei. A vida beneditina é, muitas
vezes, expressa pelo lema “ora et labora”. O trabalho aparece na Regra
em harmoniosa alternância com o Ofício, a lectio divina e a oração
particular.
E , finalmente, o quinto elemento essencial da nossa vida é o viver
em Cristo, caracterizado por um dinamismo de saber-se caminhar, guiada
pelo Evangelho, trilhando os seus caminhos.
ZENIT: Como os leitores de ZENIT podem ajudar o mosteiro de vocês?
Ir. Martha: Penso que uma primeira forma de ajudar o nosso mosteiro é rezarem por nós, para que possamos ser fiéis a esse grande carisma que
nos foi confiado e assim sermos verdadeiras testemunhas da ressurreição
de Cristo e do seu amor por cada ser criado.
E se puderem colaborar de alguma
forma para os trabalhos de nossa comunidade, podem entrar em contato
conosco pelo e-mail: contato@mosteironossasenhoradapaz.org.br .
Nosso site: WWW.mosteironossasenhoradapaz.org.br
Obrigada!
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Adeus, Papa Bento XVI
Despedida do Papa será transmitida ao vivo pela televisão
Para os cinco continentes entradas diretas em vários momentos do dia
Por Sergio Mora
ROMA, 21 de Fevereiro de 2013 (Zenit.org) - Em seu último dia de pontificado, Bento XVI será filmado ao vivo durante as últimas horas de permanência no Vaticano. Mons. Edoardo Maria Viganó, diretor do Centro Televisivo Vaticano (CTV), explica que o embarque do papa no helicóptero que o levará a Castel Gandolfo “será um momento histórico”. O CTV preparou ainda 26 câmeras para acompanhar o conclave e a apresentação do futuro pontífice.
“Pretendemos relatar este momento histórico respeitando a pessoa do papa e mantendo informados os fiéis que querem acompanhar Bento XVI neste momento tão importante”. As câmeras no Palácio Apostólico acompanharão o papa até as 17 horas do horário de Roma, momento em que o pontífice subirá ao helicóptero para partir rumo a Castel Gandolfo. Três horas depois, às 20 horas locais, começa o período de Sé vacante.
Até que ponto o santo padre será filmado sem ter a privacidade invadida? Viganó, em declarações à agência de notícias ANSA, esclarece que “os detalhes ainda não estão definidos”, mas espera cobrir o máximo possível, passo a passo.
O diretor do CTV, que também é presidente da Fundação Ente dello Spettacolo e professor na Pontifícia Universidade Lateranense, recorda que, no domingo passado, pela primeira vez, uma câmera entrou no estúdio do papa durante a oração do ângelus. “Conseguimos filmar Bento XVI por trás. As imagens passaram a ideia do grande abraço entre o papa e a multidão reunida na praça de São Pedro”.
As imagens, depois de ser transmitidas ao vivo, ficarão disponíveis para distribuição.
Espera-se reunir uma documentação histórica extraordinária sobre o último dia de pontificado para uso em estudos, pesquisas e documentários das redes televisivas.
Ao chegar a Castel Gandolfo, o papa saudará os fiéis da diocese de Albano, onde a residência pontifícia está situada. A informação é do bispo local, dom Marcello Semeraro.
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